Um fungo. Um fungo. Era assim que imaginava aquela coisa que crescia dentro dele. Um fungo que não era exatamente verde, não era exatamente branco, talvez fosse incolor. Mas com certeza, definitivamente, era um fungo. Um fungo daqueles que comem a pele e as unhas, expondo as carnes vermelhas e deixando-as doloridas, com cheiros de podre. Sem dúvida era um fungo. Pensava nisso enquanto servia mais gim, sentado no chão de sua sala, o carpete já molhado.
Nesse exato momento estava crescendo, se alimentando — o fungo. Como se fosse consciente, escolhia para onde ir, por onde percorrer até chegar ao final. Final. Acreditava, na época, que aquele fungo só acabaria depois que o seu hospedeiro — ele — minguasse até os ossos. Se bem que era um fungo poderoso, de alguma espécie até então desconhecida, um fungo que o devoraria até os ossos. Até os cabelos. Até os esmaltes dos dentes. Consumiria todo o gim bebido (e toda a nicotina ingerida).
Se bem que, na época, os esmaltes dos dentes (assim como as unhas) estavam precários. Quebradiços. Esfarelavam-se ao encontro de comida de verdade. Não sabia, mas talvez tenha sido pelos buracos nos dentes que o tal fungo tenha entrado no seu corpo. Sentia os pulsos doerem, e as costas craquelarem na banheira. Sentia dores, especialmente na garganta e na volta dos olhos.
Sentia-se ser consumido, virando pó por dentro (o fungo também lhe tirava o sono e a fome, e o descanso e a vontade de ver coisas bonitas). Sentia-se acabando. Até que se apaixonou por outra coisa.
