Ninguém


- E então, doutor, conte-nos mais sobre ele.
- Pois não… Minha tese foi inteiramente dedicada a este espécime. Ele, inclusive, é daqui.
- Oh! Pode nos contar de qual região? Sua cidade de origem?
- Mas é claro. Não corremos risco algum de outros pesquisadores se interessarem por sua história… ele era do sudeste.
- Que interessante…
- Não muito, na verdade. Sua vida foi bastante tediosa.
- Sim?
- Encontrei uma série de documentos numa casa abandonada. A casa desabou há aproximadamente 60 anos e ninguém ousou lá entrar.
- Por medo de alguma maldição? Pois a família era temida na região?
- Não… simplesmente não tinham vontade para tanto. Como disse antes, ele era um sujeito pouco interessante.
- Conte-nos mais sobre os documentos que o senhor encontrou, doutor. Estamos curiosos.
- Então: identifiquei uma série de diários, de diversas épocas da vida do mesmo sujeito. Ainda encontrei extratos bancários, exames médicos, radiografias, papeladas de trabalho… até mesmo consegui definir seus hobbies e interesses.
- E quais eram?
- A jardinagem!
- Oh!
- Exato. Foi exatamente esta a reação que tivemos — eu e meus colegas na Universidade. O homem era quase ninguém.
- Mas e nada foi encontrado em suas fichas trabalhistas? E nos prontuários?
- Deixe me pensar…. Ah, sim. No capítulo 6 descrevo suas características físicas e psiquícas. Deixe-me encontrar…
- …
- Sim: “O sujeito era saudável. Em seus diários há descrições minuciosas de suas visitas ao médico (não sofria de sintomas, e tampouco de doenças). Calçava 45 e seus intestinos eram regulares.”
- De fazer inveja a muita gente, não é, pessoal?
- Enfim. Talvez o mais impressionante seja simplesmente que ele tenha deixado tanta documentação desimportante.
- Sua tese baseou-se nesta perspectiva, doutor?
- Não exatamente. Convenci-me de que o importante era tratar do sujeito em si, daquele ninguém.
- Hm…. E o que mais o senhor descobriu?
- Ele gostava de jardinagem — como comentei anteriormente –, também tinha um certo interesse pela ida do homem à lua… Fora casado, tivera filhos… inclusive amou.
- E foi correspondido?
- Não, não foi.
- Que pena, não é minha gente? Enfim. Já passamos — e muito — do horário, infelizmente. Obrigada por esta conversa tão agradabilíssima, doutor. E finalizamos aqui o nosso programa, com a participação do Professor Doutor hemérito da Universidade de ….

Uma resposta para “Ninguém”

  1. Estudando sobre pesquisa qualitativa?

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