A maior tempestade de todas
Acordara preparado para a chuva.
Não: fora dormir preparando-se para a chuva que lera que ocorreria no dia seguinte. Seria a maior chuva de todas.
Não: seria a maior tempestade que jamais ocorrera.
Ao soar do despertador, abriu os olhos e pensou, como se houvesse apenas isso para pensar: “É hoje que virá a maior chuva”. Ligou a TV. Nela, havia previsões de granizo, ventos urrantes, pessoas sendo levadas pelos fluxos de ar (imaginava isso, ao menos).
Vestiu-se apropriadamente, imaginando seu grande dia. O dia mais importante de sua vida. O dia em que veria tanta chuva que se encharcaria por dentro. O dia em que o céu cairia. Foi trabalhar.
No caminho, comentava-se nos bancos dos ônibus as noticias, as previsões e as provisões que velhotas carolas faziam em suas casas, estocando comida em lata, galões de água e pilhas de bateria para lanternas (obviamente faltaria luz e a água potável seria contaminada com urina de rato — seria preciso atentar para a leptospirose, pelo menos aqueles que não fossem levados pela enchente). Falava-se inclusive na ajuda do exército que seria necessária para remover os escombros e salvar pessoas ilhadas (pelo menos aquelas que não morressem com os raios intermitentes que cairiam sobre as ávores em que as pessoas se apoiariam para esperar ajuda).
Na pasta de couro de filhote, levava consigo sacos plásticos para ensacar os sapatos de couro de grife não muito importante. Tinha meias de brasão, inclusive. Preparara-se cuidadosamente. Nas poucas quadras que caminhava do carro ao prédio, encontrou uma criança brincando com sua mãe. Teria sorrido para ela e para mãe, isso se não fosse o dia da grande tempestade. Podia sentir o cheiro de fim no ar, e o barulho das aves citadinas fugindo para longe do caos que se preparava o amortecia.
Trabalhou avidamente, empilhando e desempilhando papéis. Não descalçou os sapatos como sempre fazia (eram novos), nem ficou de papo furado no bebedouro (não bebia café. Ficava ansioso).
Enquanto voltava pra casa, enquanto procurava a única chave que abria o portão do prédio entre todas as outras foi fulminado de uma única vez pelo único raio que caiu do céu. Parece que foi a única vítima da maior tempestade de todas, que nem foi muito grande assim.