Arquivo para Outubro, 2008

Tenho uma amiga que só pensa em morrer

Postado em Tragédias em Segunda-feira, 20 Outubro, 2008 por FernandoP

Tenho uma amiga que só pensa em morrer.

Eu até digo pra ela parar com isso, esquecer isso, mas ela diz que não pode. Que não consegue. Que é puxada pra baixo como se morasse em Vênus. É poética essa minha amiga, especialmente quando fica triste. Especialmente quando quer morrer.

Esses dias me ligou de madrugada, dizendo que havia bebido tudo o que tinha em casa. Dizia que não agüentava mais, que não suportava mais, que tudo estava acabado. Tudo era ruim, tudo era péssimo, absurdamente péssimo. Inclusive com o noivo.

Ela tem esse noivo, já faz uns meses, mas parece que ela não gosta muito dele. Está sempre reclamando, dizendo que ele não a satisfaz (nesses termos), que ele é insuficiente (ela usa “insuficiente” mesmo). Mas que não consegue largá-lo, que ele é bom demais. Enfim. Ela é meio trocada, parece.

Todas as vezes que vejo ela, ela reclama. Agora deu para usar aquelas palavras fortes como sempre, como tudo, como vazio. Diz que é vazia. Vazia como um buraco negro. Acho estranho, pois se ela fosse vazia, ela não poderia ser. Apenas o que é, pode não ser. Ela quer não ser mais. Ela sempre diz que quer morrer.

Ela é uma ótima amiga, contudo. Quando ela era feliz (ainda lembro dela feliz), ela gostava de bastante coisa. Mas agora ela está mal. Ela lembra de vez em quando de quando era feliz. De como sua mamãe a embalava no berço macio. Agora, porém, diz essa minha amiga, seu berço macio foi roído pelas traças, e sua mamãe virou uma bruxa megera que a quer mais longe do que sarna. Coitada dessa amiga, tudo dá errado pra ela — é o que ela pensa, pelo menos. Já vi tanta gente pior…

Essa minha amiga que só pensa em morrer já tentou morrer algumas vezes, mas não conseguiu nenhuma. Parece que ela é alérgica à gás e não tem forças suficientes para amarrar nós. Tadinha. Ela também está insatisfeita com todo o resto (todo o resto além de não conseguir morrer).

Diz que não entende as pessoas, que elas são por demais insondáveis. Eu digo que é normal, que se fôssemos menos opacos seriamos mais desinteressantes. Também não entende esses políticos corruptos todos, que se repetem uns aos outros e que não mudam nunca. Eu falo que eles são corruptos porque são humanos, no final das contas. Ela não compreende o motivo das pessoas fazerem tanto mal aos animais, pobres, mais pobres do que ela mesma. Já eu, eu acredito que as pessoas já fazem tanto mal para si mesmo.. o quê os bichos têm a ver com isso? Ela não sabe o por quê de quase tudo, enfim. E eu? Eu digo que eu também não.

Essa minha amiga que quer morrer é querida. Gosto muito dela. Ela é esperta também. Sempre discutimos a Beleza (não que ela considere algo realmente belo), e também foi ela quem me ensinou aquilo de apontar com os pés a nova direção em que se caminha, para evitar dar encontrões em pessoas que caminham diretamente contra a gente na rua.

Acho que vou sentir falta quando ela finalmente morrer.

Editado pela última vez em 23 out. 2008.

Silêncio

Postado em Tragédias em Domingo, 19 Outubro, 2008 por FernandoP

Era jovem, de aproximadamente uns doze anos, agorduchado, ensimesmado pelos prédios altos e escuros que encontrava no caminho da casa para a escola. Usava sempre o mesmo par de sapatos e o mesmo abrigo escolar, o que denunciava sua condição de estudante. Também sempre tomava o mesmo caminho, solitário, cedo pela manhã, pela neblina escura, do apartamento alto até a parada de ônibus, da parada de ônibus para a escola.

Contudo

Contudo no meio do caminho havia uma vila. Uma pequena vila. Uma vila simples, com muitos cachorros e bosta de cachorro espalhados pelas ruelas. Ela ficava entre a parada de ônibus e a escola. Os cachorros, as bostas de cachorro e os moradores da vila.

Até aquele dia — aquele dia — nunca havia percebido.

Sempre que passava, as crianças que moravam na vila baixavam suas vozes. As bolas coloridas pulavam mais lentamente de mão em mão. Os vagabundos que por ali perdiam seu tempo seguravam a fumaça de seus cigarros por mais tempo. Percebeu isso quando, naquele dia, também percebeu que seu tênis estava desamarrado.

Parou, abaixou-se, amarrou-se e olhou para a frente, ainda genunflexionado.

Viu olhinhos quase humanos escondidos numa vidraça, na casa logo à frente, uma das muitas que compunham as vielas labirínticas, acompanhando seus movimentos.

Tornou os olhos para baixo, (lembrou-se de fechar a boca (sempre a boca ficava aberta em momentos de concentração)) segurou sua pasta mais junto ao corpo do que seria necessário e olhou para o lado. Até mesmo os cachorros o seguiam com os olhos, percebeu. Havia pequenos olhos em todos os lugares, observando-o, estudando-o. Ele, seu abrigo e suas bochechas gordas.

Desde quando faziam isso? Nunca percebera. Também nunca se importara, mas agora parecia importante. O ar cheirava azedo, naquele momento, como se alguém cozinhasse alguma coisa podre em cada casa. Pôs-se de pé e apressou os passos.

Nunca o tinham o visto, por acaso? Nunca tinham visto uma criança gorda, colegial e desprotegida? Como se importasse.

Ao tentar sair da vila, naquela manhã, ainda coberta de neblina, foi impedido por alguns. Tentou correr pelos lados, mas só acabou se perdendo pelas muitas casas e bostas de cachorro e encontrando ainda mais outros.

Os cachorros assistiram impassíveis a alguém sair de dentro de uma das casas com uma pá, dessas que se usa para cavar buracos no chão e para quebrar crânios.

Seus ossos foram roídos no mesmo dia.

Repressão

Postado em Tragédias em Domingo, 19 Outubro, 2008 por FernandoP

(Para Luiz e para John Cage. Mais para Luiz do que para John Cage.)

[Superego]