Relações póstumas
“O MUNDO VAI ACABAR”.
Milhares de buracos negros se abrirão e engolirão todas as coisas. Não sobrará nada. Inclusive os planetas ao redor serão tomados pelo nada absoluto que rouba até a luz. Todos os canais falavam isso (e eles não se importavam. pelo menos um deles não) e só falavam nisso e tudo isso era desmentido por outros canais da TV que ficava cada vez melhor conforme mais tarde ficava.
Estavam ambos na cama, depois de um dia. Estavam ambos na cama esperando amanhã chegar para voltarem ao que deviam fazer sempre que amanhã chegava.
A âncora disse que dali a duas horas os motores do grande colisor seriam ligados e que, então, seria possível que tudo acabasse. Que tudo acabasse. Que tudo fosse sumido.
Não puderam evitar, mas comentaram. Dali a duas horas provavelmente acabariam. E estariam dormindo quando toda ação fosse acontecer.
Não ligaram. Dormiram e acordaram amanhã.
No outro dia não sabiam se estavam vivos. Se eram apenas sombras. Se tudo o que viam não fora coberto de antimatéria e portanto tinham antiatitudes completadas por antimovimentos. Não poderiam dizer se suas memórias se corromperam em antimemória e que o mundo, depois da grande compressão pelos milhares de buracos negros em baixíssimas temperaturas e ainda maiores gravidades, não havia virado ao contrário e de dentro pra fora. Não sabiam também se as cores sempre haviam sido aquelas ou se também haviam virado anticores. Tudo parecia exatamente como antes. Mas nunca poderiam dizer as diferenças de antes e depois — se é que havia.
Continuaram vivendo assim até que morreram. Ou antimorreram.