Deformada
E então fez-se o fim.
Ela desfalecera no banheiro, dentro do box, embaixo da água morna, onde fora deixada para lavar o sangue do rosto e da cabeça. Isso era uma tarefa cotidiana para ela, já estava acostumada, e fora exatamente isso que levou ela a esta situação.
Perdera sua humanidade logo ao nascimento. Talvez até mesmo nunca fora humana. Desde cedo aprendeu sobre os motivos de ser escondida de todos. Sobre por que era tão odiada por todos. Pelos colegas de primário, pelos parentes distantes, pelos parentes próximos. Todos ao seu redor, exceto uma ou duas professoras, desgostavam dela, especialmente por ela ser uma deformada.
É possível que por ser apontada como deformada desde sempre (reza a piada familiar que até mesmo o médico riu dela no nascimento), deformara-se de modo incurável. Olhava apenas para o chão, ortogonalmente. Os cabelos cresceram para que ninguém precisasse ver a desgraça da família.
Rodeava-se de poucas coisas, vivia em casa. Saía raramente, quando os pais estavam de bom humor.
Quando estavam de mau humor era diferente. Geralmente apanhava nessas ocasiões. Crescera levando murros no rosto. Desde cedo. Por isso, provavelmente, por ter seus dentes afrouxados com freqüência, perdera-os quase todos ao se aproximar dos vinte anos. Teve ossos quebrados, pele queimada e muitas, muitas sangraduras nesse tempo todo. E apanhava calada, sabendo-se merecedora disso por ser feia. Acostumara-se a tomar longos banhos de água morna.
Foi então, depois de já adulta e de muito ser surrada pelos pais por ser feia, que perguntaram a eles quem era aquela menina que nunca cumprimentava os vizinhos do prédio. Seria ela alguma empregada? Alguma parente distante? Seria ela a filha deles?
Isso foi o suficiente para despertar a ira nos pais. Arrebentaram-na como se não houvesse mais amanhã.
E não houve.
Sexta-Feira, 10 Outubro, 2008 às 4:02 am
Que ingênuo eu, fiquei esperando um final feliz. Mas e não é que foi, de certa forma…
Muito bom!!