Arquivo para Junho, 2008

Três cadelas

Postado em Tragédias em Segunda-feira, 9 Junho, 2008 por FernandoP

Eram em número de três e não se separavam. Três putinhas unidas em sua escrotidão. Se conheceram muito jovens, muito jovens mesmo. Talvez tivessem se influenciado mutuamente na maldade, na falta de hombridade. Talvez houvesse uma líder. O importante de notar, enfim, era que não passavam de miseraveizinhas.

Porcas malditas que se uniam para passear pelas ruas da cidadezinha – do Dorf.

Moravam juntas agora, já que a casa de duas delas havia ido aos ares. Eram tão vis que riram quando perderam suas coisas. Os pais da terceira (que ainda viviam) ofereceram guarida, pois a uma primeira vista pareciam humanas.

Todos os dias, algumas horas depois deles chegarem e partirem, elas saíam às ruas. Catavam pedrinhas, encontravam objetos perdidos pelas ruas (mais pés de sapato do que qualquer outra coisa. às vezes, cabelos), e olhavam para cima e para os lados com curiosidade infantil, como se pudessem registrar detalhes de cor e sombra. É possível que pudessem — eram tão pequenas que talvez até conseguissem.

O que mais as divertia, nessas saídas, era ver a casa dos outros caídas (de preferência sobre os outros). Também apontavam e riam dos cachorros agora surdos e assustados. Uma delas — se tornava difícil distingüir uma da outra agora — inclusive levou um desses cães para casa, para poder assistir a ele definhar com mais calma.

Negou-lhe comida e água. Negou-lhe proteção. Só deu-o abrigo, mas por motivos óbvios. A ele foi dada a permissão de morrer em sua casa desde que agonizasse lindamente. O velório do bicho ainda vivo foi realizado no quintal, com as três meninas ao redor, com olhos e palpitações de prazer.

Quando finalmente morreu, elas abriram-no e contaram seus ossos.

Eram malditas e sabiam disso, se divertiam com isso.

A história acabou, contudo, quando eles chegaram à cidade e entraram na casa. Atiraram na mãe, que cozinhava, e surraram o pai até ele colapsar. As meninas, que não eram tolas, trancaram-se no quarto: uma embaixo da cama, uma no armário e outra olhando a janela. Não tentaram fugir quando eles atearam fogo à casa.

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Modificado em 17 de julho de 2008.