Conheceram-se cedo, para ambos, e, portanto, é possível e justo dizer que cresceram e desenvolveram-se juntos. A história havia começado antes de se encontrarem, até mesmo muito antes de se saberem únicos. Nasceram na mesma cidade, com alguns anos de diferença. Essa diferença, contudo, apenas auxiliaria no futuro, já que um tornaria-se responsável pelo outro socialmente — e assim a história poderia ter o desfecho que viria a ter.
O mais velho era um deformado. Era rido pelos colegas (pela frente, apenas por eles; pelas costas, por muito mais gente do que sequer conhecia) e também era óbvio que até mesmo quem não o conhecia ria dele, era lúcido o suficiente para compreeder isso desde pequeno, desde pequeno demais. Acreditava existir algum motivo para sua compleição ser daquele jeito. Ouvira histórias de mães drogadas que destruiam a vida de seus filhos legando-os um corpo mal-feito. Também conhecia histórias de mães que sofreram acidentes muito cedo ou muito tarde na gravidez, e isso, de alguma forma, corrompera o corpo que se formava dentro daquele outro corpo. E também havia deus. Ele não era exatamente crédulo, mas era temente na medida exata para hipotetizar que sua existência não passava de alguma tentativa de humor por parte de deus.
Conheceram-se e encontraram-se e descobriram-se duas metades faltantes (já sabiam ter alguma metade faltante sua perdida pelo mundo desde cedo, desde cedo demais) na rua. O mais velho voltava da escola e o mais novo vagava simplesmente.
O mais novo nascera de uma ninhada de oito da qual fora o mais retardatário. Não havia isso de caçula ser algo positivo em sua família, já que todos eram bestas que agiam unicamente por instinto — instinto de investir apenas nos campeões. Tomava o leite que sobrava unicamente, quando sobrava leite, o que acabou por dar-lhe um atraso intelectual, além de uma carência afetiva monstruosa. Sabia, desde cedo, desde cedo demais, que não sobreviveria naquela família de cães e decidiu partir assim que o desmame acontecesse. Vagava calma e curiosamente pela cidade que lhe era nova e comia onde encontrava comida. Era um pouco sarnento e um pouco magro demais mas muito simpático, e foi por isso que se acolheram.
Tornaram-se amigos e companheiros desde a primeira vista. Cresceram e se desenvolveram juntos. E agora que moravam juntos, sozinhos, estavam mais unidos do que nunca. Dormiam na mesma cama, por vezes comiam a mesma comida, mas isso é depois.
Um levou o outro para casa onde ambos não foram recebidos com boas-vindas. “É o segundo que tu traz. Se tu não cuidar bem dele, vou botar fora, que nem o outro” ouvira. Acenara afirmativamente com toda a ênfase de quem promete algo que é tão impossível quanto necessário. E deu certo. Cuidava dele com cuidado. Tornaram-se amigos e dividiam a presença um do outro com toda a freqüencia que era possível. Dormiam na mesma cama (um aos pés do outro) e comiam a mesma comida (bem, quase a mesma. Para um era dado também ração.) e se divertiam mutuamente.
Até que um tempo depois, muito tempo depois, quando já moravam juntos, tudo mudou. Moravam sozinhos e se dependiam completamente. Gostavam assim, bastavam-se assim. Se divertiam assim. Mas um dia, quando o deformado arranjou uma melhor-amiga (jamais teria capacidade de ter uma namorada, sabia), e esta foi os visitar em casa (ver um filme ou tomar um café, não importa. Talvez ver a máquina de lavar louças nova deles, já que andava interessada em comprar uma para si) e descobriu o cachorro, não mais sarnento e magro, mas ainda adorável, decidiu comprar-lhe um presente. Comprou e deu, e foi aí que tudo mudou.
Era um cachorrinho de pelúcia, peludo na medida certa e usado na medida certa. Era de seu uso próprio na infância e que havia guardado para posterior uso (seja lá o que imaginara com isso). Acreditava guardar para dar para alguém, talvez uma criança carente, mas nunca deu e viu no cachorro do amigo depósito perfeito para o brinquedo. Este, então, encantou-se.
Encantou-se para nunca mais desencantar-se, diga-se de passagem. O humano, então, enciumou-se, profundamente. Indescritivelmente. O cachorro — o seu cachorro — agora tinha vida própria longe dele e perto daquela massa amorfa de pêlos que convencionou-se chamar de bicho de pelúcia. Era inadimissível qe aquele objetozinho inanimado oferecesse mais diversão do que ele, com braços grandes que podiam alcançar o armário onde era guardada a ração.
Aqueles dois, aqueles novos dois (porque antes, antes, eram um par perfeito) se divertiam agora. Passavam o dia um na boca do outro, cheirando-se. Dormiam na mesma cama e só não deviam comer a mesma comida porque o pelúcia não se alimentava. Mas se fosse possível… Que falta de respeito, e em sua (sua) própria casa!
A relação dos canídeos chegou a um ponto em que nem mesmo ao humano era concedida a permissão de se aproximar (o que diriam as moscas, que eram agressivamente afastadas do ninho onde dormiam). O humano, sentindo-se traído e ultrajado, expulsou o seu ex-melhor amigo para sempre. No primeiro momento, este último não percebera a gravidade das ações do primeiro. Percebeu quando o humano vassourou aqueles dois para fora do apartamente, para fora do prédio.
Os dois, então, encontraram-se sozinhos.
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Editado pela última vez em 25 de fevereiro de 2008.
