Era férias e, por tanto, era época de trabalhar. Com isso não ficavam perdidas na rua e os pais aproveitavam para ganhar algum dinheiro. A primeira já fazia isso há algum tempo, com a ajuda da mãe. Passavam por todas as ruas vendendo doces na época de movimento no litoral (quando não era férias. Quando não era alta temporada, elas participavam da escola). Era o primeiro mês da segunda (e por isso a primeira ia junto), que devia ter em torno de seis anos, e já aprendia rápido.
Passaram a manhã dividindo a rua (uma nas casas da direita, uma nas casas da esquerda) para agilizar a venda e a volta pra casa. Caminhavam sob o sol, com um bolso de dinheiro recebido e contado e sacolas de pacotes contados de rapadura nos ombros. Estavam acostumadas a caminhar bastante, sempre, sob o sol.
Enquanto passavam pelas casas continuavam crianças. Olhavam para o céu e alguma nuvem engraçada, catavam pedras, canetas usadas ou anéis de latas de aluminío em cores estravagantes. Também brincavam com os cachorros das pessoas ricas que tinham casas grandes no litoral (e provavelmente também na cidade). Invejavam um pouco os carros grandes, as casas grandes e os cachorros pequenos daquelas pequenas famílias, mas mais a primeira menina. A segunda não se importava muito, ainda. Esta ainda se divertia — talvez por ser seu primeiro mês de trabalho forçado.
Então que elas cansaram. Pararam, as duas, na casa do lado direito. Gritaram a propaganda usual (“Moço, quer doce?”) e receberam a resposta usual (“Hoje não, obrigado.”). Perguntaram, então, se não podiam dar um copo d’água.
Deram.
Beberam e pediram outro. Estava quente naquele dia.
Junto do segundo copo ganharam dois reais. “Compra um sorvete pra ti e pra ela.”, disseram, do lado de dentro da grade, enfiando as moedas pela fenda como se faz em uma máquina de refrigerante. Foram bons mas não completamente acreditavam na caridade.
A segunda, pequena e inexperiente, não se conteve e perguntou alto quanto haviam dado — recebeu um leve cutucão no ombro por parte da parceira, experiente, que indicava que ela deveria ficar quieta. Ambas ficaram e se foram. Mas ficaram contentes também. Não comentaram uma pra outra, mas imaginaram o quê podiam comprar. Qual seria o maior que encontrariam, se iria ser de uva ou chocolate, se iriam dar conta de comê-los todos antes do sol derretê-los. Animaram-se.
Nem viram o dia passar. Mas passou e se animaram ainda mais, devido à eminência do que ocorreria, para ir à venda antes de chegarem em casa (não queriam dividir com os irmãos). Chegaram lá e arregalaram-se sobre o congelador. Levaram minutos para se decidir.
Na hora de pagar, viram que as duas moedas haviam sumido. Não sabiam onde haviam colocado elas, não sabiam como haviam desaparecido. Talvez tivessem perdido, talvez tivessem caído, mas isso não importava.
Tiveram de devolver os sorvetes pro congelador e voltar pra casa. Alguns minutos atrasadas.
-
Editado pela última vez em 10 de fevereiro de 2008.
