Arquivo para Janeiro, 2008

Meninas

Postado em Tragédias em Segunda-feira, 28 Janeiro, 2008 por FernandoP

Era férias e, por tanto, era época de trabalhar. Com isso não ficavam perdidas na rua e os pais aproveitavam para ganhar algum dinheiro. A primeira já fazia isso há algum tempo, com a ajuda da mãe. Passavam por todas as ruas vendendo doces na época de movimento no litoral (quando não era férias. Quando não era alta temporada, elas participavam da escola). Era o primeiro mês da segunda (e por isso a primeira ia junto), que devia ter em torno de seis anos, e já aprendia rápido.

Passaram a manhã dividindo a rua (uma nas casas da direita, uma nas casas da esquerda) para agilizar a venda e a volta pra casa. Caminhavam sob o sol, com um bolso de dinheiro recebido e contado e sacolas de pacotes contados de rapadura nos ombros. Estavam acostumadas a caminhar bastante, sempre, sob o sol.

Enquanto passavam pelas casas continuavam crianças. Olhavam para o céu e alguma nuvem engraçada, catavam pedras, canetas usadas ou anéis de latas de aluminío em cores estravagantes. Também brincavam com os cachorros das pessoas ricas que tinham casas grandes no litoral (e provavelmente também na cidade). Invejavam um pouco os carros grandes, as casas grandes e os cachorros pequenos daquelas pequenas famílias, mas mais a primeira menina. A segunda não se importava muito, ainda. Esta ainda se divertia — talvez por ser seu primeiro mês de trabalho forçado.

Então que elas cansaram. Pararam, as duas, na casa do lado direito. Gritaram a propaganda usual (“Moço, quer doce?”) e receberam a resposta usual (“Hoje não, obrigado.”). Perguntaram, então, se não podiam dar um copo d’água.

Deram.

Beberam e pediram outro. Estava quente naquele dia.

Junto do segundo copo ganharam dois reais. “Compra um sorvete pra ti e pra ela.”, disseram, do lado de dentro da grade, enfiando as moedas pela fenda como se faz em uma máquina de refrigerante. Foram bons mas não completamente acreditavam na caridade.

A segunda, pequena e inexperiente, não se conteve e perguntou alto quanto haviam dado — recebeu um leve cutucão no ombro por parte da parceira, experiente, que indicava que ela deveria ficar quieta. Ambas ficaram e se foram. Mas ficaram contentes também. Não comentaram uma pra outra, mas imaginaram o quê podiam comprar. Qual seria o maior que encontrariam, se iria ser de uva ou chocolate, se iriam dar conta de comê-los todos antes do sol derretê-los. Animaram-se.

Nem viram o dia passar. Mas passou e se animaram ainda mais, devido à eminência do que ocorreria, para ir à venda antes de chegarem em casa (não queriam dividir com os irmãos). Chegaram lá e arregalaram-se sobre o congelador. Levaram minutos para se decidir.

Na hora de pagar, viram que as duas moedas haviam sumido. Não sabiam onde haviam colocado elas, não sabiam como haviam desaparecido. Talvez tivessem perdido, talvez tivessem caído, mas isso não importava.

Tiveram de devolver os sorvetes pro congelador e voltar pra casa. Alguns minutos atrasadas.

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Editado pela última vez em 10 de fevereiro de 2008.

Todesfuge

Postado em Terceiros em Quinta-feira, 17 Janeiro, 2008 por FernandoP

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng

Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland

dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith

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de Paul Celan.
Clique aqui para ouvir o autor lendo o poema. (clicar em “Audio”, na direita, para baixar o arquivo .RM)

Não creias, Lídia…

Postado em Terceiros em Terça-feira, 15 Janeiro, 2008 por FernandoP

Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo

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Sophia de Mello Breyner
(Homenagem a Ricardo Reis, 1972)
Retirado da internet.