Arquivo para Dezembro, 2007

VI

Postado em Terceiros em Quarta-feira, 19 Dezembro, 2007 por FernandoP

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- Tenho aqui o papel, vou ler um pedaço. Diz: “Sai de viagem e me deixa, como um velho novelo de lã. Espera-o, a cada instante, o pobrezinho octopato”. Assinado: “O octopato, com um carinho e uma censura”.

- Coitado do octopato — disse Jorge. — Que é que vai comer quando você estiver ausente?

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Julio Cortázar. Os Prêmios. São Paulo: Círculo do Livro, [1985?].

sem título

Postado em Tragédias em Segunda-feira, 17 Dezembro, 2007 por FernandoP

E o que foi que eu ganhei com tudo isso?

Alguns kg a mais. Preocupações a mais. Nomes de filmes a mais na minha lista de favoritos.

Minha coleção de sacolas aumentou — diversos tamanhos e motivos diferentes. Também ganhei escoriações e um ou dois ossos quebrados. Calos ósseos.

Ganhei também elogios graças às pinturas que fiz. Ganhei tempo perdido, e horas perdidas, e noites perdidas. Ganhei pesadelos novos também. Ganhei motivos bobos pra rir enquanto caminhava na rua.

Big Crunch

Postado em Tragédias em Domingo, 2 Dezembro, 2007 por FernandoP

- Oi, será que tu não podia me dar uma carona até lá?
Silêncio.
- Porra, meu. Só uma carona. Não vou nem abrir minha boca.
- Não é questão de tu abrir a boca ou não. Não quero meu carro com a tua murrinha.

Assim terminou seu último diálogo. Ela queria ir para o enterro do irmão, mas morava longe, não sabia ir, não tinha como chegar — como sempre. O outro irmão, indiferente, brigado, ofendido, não se importou. Onde já se viu, ela devia ter pensado melhor antes de ter brigado com ele.

Haviam passado alguns meses sem se falar — por um motivo tolo, obviamente. Orgulhosamente não se procuraram. Ela precisou se esforçar — como sempre — para ceder e pedir ajuda. Talvez tenha agradecido por ele não ter aceitado. Tola, assim como o irmão, afinal vinham da mesma família.

Ficaria em casa, chorando sozinha. Choraria pelo irmão morto — falecera na madrugada anterior, ligaram da casa dele para todos os parentes avisando — e por sua sina miserável. Ficaria em casa e choraria, solitária e vazia (não que soubesse que era vazia).

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Editado pela última vez em 14 de janeiro de 2008.