- Oi, será que tu não podia me dar uma carona até lá?
Silêncio.
- Porra, meu. Só uma carona. Não vou nem abrir minha boca.
- Não é questão de tu abrir a boca ou não. Não quero meu carro com a tua murrinha.
Assim terminou seu último diálogo. Ela queria ir para o enterro do irmão, mas morava longe, não sabia ir, não tinha como chegar — como sempre. O outro irmão, indiferente, brigado, ofendido, não se importou. Onde já se viu, ela devia ter pensado melhor antes de ter brigado com ele.
Haviam passado alguns meses sem se falar — por um motivo tolo, obviamente. Orgulhosamente não se procuraram. Ela precisou se esforçar — como sempre — para ceder e pedir ajuda. Talvez tenha agradecido por ele não ter aceitado. Tola, assim como o irmão, afinal vinham da mesma família.
Ficaria em casa, chorando sozinha. Choraria pelo irmão morto — falecera na madrugada anterior, ligaram da casa dele para todos os parentes avisando — e por sua sina miserável. Ficaria em casa e choraria, solitária e vazia (não que soubesse que era vazia).
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Editado pela última vez em 14 de janeiro de 2008.