Desligou-se da vida dela com um único beijo. Forçou a abertura dos lábios com uma chupada no lábio inferior e enfiou sua língua raspando lá dentro, com malvadez. Quase com raiva. Punitivamente.
Vadia.
Se quer ir embora, que vá.
As mãos dela procuraram a cintura magra e ossuda, que fugiu, arredia. Vadia, queria cuspir na cara dela mas isso também seria demais. Perderia a classe. Pretendia não se verem nunca mais para sempre.
Não havia alternativas a serem preenchidas, as coisas eram como eram. Sabiam disso desde o início mas mesmo assim ousaram atrever-se. Traço característico, a impossibilidade era a constante e estavam cientes. Aquilo nunca passaria de ensaio.
Ambos incapacitados, moles, coxos. Não andariam mesmo que se escorassem mutuamente. Fundamentalmente mancos. Impossíveis.
Faltantes, viviam pelo vazio e pela tentativa de seu preenchimento. Um já sabia que a culpa era dos outros, o outro ainda achava que era culpa sua. Nada adiantava procurar, engolir ou devorar uma vez que a realização era impossível.
Indescansável, a risada era pouco também. Dormir adiantava às vezes, quando as cores ficavam mais fortes depois de acordar, mas nem sempre aconteciam maravilhas.
Elas aconteciam, sim. Aconteciam de fato e era isso o que fazia tudo continuar. Esperançosos, esperavam que tudo daria certo no final (não que dessem). Boca com eterna fome de outra boca¹.
Vadia.
Se quer ir embora, que vá, disse, finalmente, com ranço e amargor. Não pela situação em específico, mas pelas situações todas de sempre. Um vazio que, ao englobar tudo, se tornava tudo.
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¹ Hilda Hilst