Arquivo para Novembro, 2007

Cadela

Postado em Tragédias em Sexta-Feira, 16 Novembro, 2007 por FernandoP

No pátio da frente vivia uma cadela solitária. Meio malhada, magrinha e encurralada. Passava os dias sem viver com viva alma e só se satisfazia quando os donos passavam a mão nela — ela se urinava.

Vendo isso da janela todos os dias (a cadela, não os donos, que só apareciam uma vez por semana, quando dava tempo), ele decidiu manter contato e abanar, assobiar e jogar algo que pudesse divertir ela. Ela também se urinava quando recebia carinho à distância.

Uma vez o peso de vê-la sozinha foi muito grande. Ela estava amuada e fazia dias que os donos não apareciam. Nesse dia ele tentou pegar ela, esticando os braços para baixo da janela. Caiu e morreu.

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Editado pela última vez em 17 de dezembro de 2007.

Um velho puto

Postado em Tragédias em Quinta-feira, 15 Novembro, 2007 por FernandoP

Chegados os sessenta anos, viu que continuava o mesmo. O solitário mal-amado e mal amante de desde o início. Não conquistou nada fora o título de costureiro junto às velhas do prédio, além de algumas manchas senís nos dorsos das mãos rugosas.

Passava os dias no apartamento pequeno de terceiro andar, de pijamas, principalmente. Pijamas velhos, assim como o dono. Havia dias que tinham forte cheiro de urina, mesmo que ele controlasse muito bem, ainda, a sua bexiga.

Passava os dias, também, a admirar a rua através da janela. Olhava o parque, o sol forte batendo nas pessoas, os cavalos da polícia.

Começou a costurar na cidade grande depois de ter fugido da cidade pequena em que crescera. Conseguiu uma máquina de costuras usada, do antigo dono do apartamento, e decidiu ser costureiro. Agora costurava baínhas de calças das vizinhas, além de fazer um ou outro vestido de debutantes para as sobrinhas e netas das vizinhas.

Com sessenta anos havia se tornado apenas o costureiro de baínhas de velhas velhas. Morava num apartamento alugado sem filhos, sem irmãos, sem nada. Vivia de iogurtes e de má programação na TV. Passava dias sem falar também. Apenas olhando para a janela, para o parque, para o sol nas pessoas no parque, para os cavalos dos policiais no parque.

Impossibilidades

Postado em Tragédias em Quarta-feira, 7 Novembro, 2007 por FernandoP

Desligou-se da vida dela com um único beijo. Forçou a abertura dos lábios com uma chupada no lábio inferior e enfiou sua língua raspando lá dentro, com malvadez. Quase com raiva. Punitivamente.

Vadia.

Se quer ir embora, que vá.

As mãos dela procuraram a cintura magra e ossuda, que fugiu, arredia. Vadia, queria cuspir na cara dela mas isso também seria demais. Perderia a classe. Pretendia não se verem nunca mais para sempre.

Não havia alternativas a serem preenchidas, as coisas eram como eram. Sabiam disso desde o início mas mesmo assim ousaram atrever-se. Traço característico, a impossibilidade era a constante e estavam cientes. Aquilo nunca passaria de ensaio.

Ambos incapacitados, moles, coxos. Não andariam mesmo que se escorassem mutuamente. Fundamentalmente mancos. Impossíveis.

Faltantes, viviam pelo vazio e pela tentativa de seu preenchimento. Um já sabia que a culpa era dos outros, o outro ainda achava que era culpa sua. Nada adiantava procurar, engolir ou devorar uma vez que a realização era impossível.

Indescansável, a risada era pouco também. Dormir adiantava às vezes, quando as cores ficavam mais fortes depois de acordar, mas nem sempre aconteciam maravilhas.

Elas aconteciam, sim. Aconteciam de fato e era isso o que fazia tudo continuar. Esperançosos, esperavam que tudo daria certo no final (não que dessem). Boca com eterna fome de outra boca¹.

Vadia.

Se quer ir embora, que vá, disse, finalmente, com ranço e amargor. Não pela situação em específico, mas pelas situações todas de sempre. Um vazio que, ao englobar tudo, se tornava tudo.

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¹ Hilda Hilst