Arquivo para Setembro, 2007

Homunculus, ou, O digitador – segunda parte

Postado em Tragédias em Sexta-Feira, 28 Setembro, 2007 por FernandoP

Leu no jornal que o Prédio dos Dados era o mais eficiente do condado. Sentiu orgulho por ser parte dele, mas estava indiferente por não ser mencionado. Não importava, desde que o dos Dados fosse o mais eficiente.

Sentado lá o dia inteiro, às vezes imaginava-se em casa. Tirando a gravata (que começava a apertar) e deitando na cama. Pegando o lápis rombudo e o papel. Sem música. Não precisava de música. Precisa era escrever. Ou digitar.

Começava também a querer voltar pra casa mais cedo, antes da pilha de papéis acabar. Se aborreceu e reclamou — as letras, agora, pareciam menores e achava que alguém de algum andar superior comprimia os dados para ocupar mais espaço e mais operários.

Ele digitava, homunculus. Digitava. Os números pequenos. Estava na ala dos números pequenos. Contudo, também começava a querer digitar os números longos (talvez pra ter no quê prestar atenção). Mas não. Ele era da área dos números pequenos e das tabelas simples, sabia disso.

Os colegas não pareciam notar sua crescente insatisfação, uma vez que não se falavam. Na cantina cada um entrava, comprava, sentava e comia. Era uma cantina, afinal. Em casa, além dos vários “digitei”, começava a escrever que havia cansado

Um dia, Uma manhã, maldita manhã, ele quis mudar o mundo.

Não tomou café da manhã. Foi mal vestido para o trabalho (sem banho) e lá chegando decidiu botar o prédio abaixo. Digitou todos os números na ordem errada. Fez questão de pular páginas de tabelas e, nas casas faltantes, inventar números aleatórios.

São dados. Não faziam sentido pra ele (e de fato não era para fazerem) e ele se inconformou.

Ao final do dia foi preso.

A câmera de seu cubículo percebeu que os papéis estavam sendo descartados em pilhas grandes demais para o pequeno tempo de análise e transcrição, mesmo que aquele trabalhador fosse um bom exemplar. Foi preso e ninguém mais soube dele.

Bem, ninguém sabia muito bem dele. Se viam apenas no trabalho.

-

“Homunculus, ou, O digitador”, Parte I.
Editado pela última vez em 21 de outubro de 2007.

My love has green lips (transcrito)

Postado em Terceiros em Sexta-Feira, 28 Setembro, 2007 por FernandoP

My Love has green Lips
And his skin
A kind of pale blue
boots
guns
summer 90
Dead Sea
Gollan Hills
I Remember my Love
his words
the book Dedicated
My Love is Unreal
inexistent
Like my Rivers
Like my Ponds
unlike my soul
fragile guitar
guideless car

de Leonilson, 1990 (Projeto Leonilson)
transcrito, possivelmente errado.

Um artista da fome (trecho)

Postado em Terceiros em Quinta-feira, 27 Setembro, 2007 por FernandoP

Podia jejuar da melhor forma que lhe fosse possível — e ele o fazia –, mas nada mais poderia salvá-lo, as pessoas passavam por ele sem lhe dar atenção. Tente explicar para alguém a arte de jejuar! Não é possível fazê-la entender a alguém que não a sente. Os belos cartazes foram ficando sujos e ilegíveis, foram arrancados, e ninguém pensou em substituí-los; a tabuleta com o número dos dias jejuados, que nos primeiros tempos tinha sido renovada cuidadosamente a cada dia, continuava a ser a mesma fazia muito tempo, porque depois das primeiras semanas o pessoal ficou achando demais até mesmo esse pequeno trabalho; e desse modo, embora o artista da fome continuasse a jejuar, tal como outrora sonhara, e conseguisse fazê-lo sem grande esforço, tal como ele o tinha predito então, ninguém mais contava os dias, ninguém, nem mesmo o próprio artista da fome, sabia quão grande já era o seu desempenho, e o seu coração ficou pesaroso. E se alguma vez, nesse tempo, um passante que não tinha nada melhor o que fazer se detivesse, zombasse da velha cifra e falasse de fraude, isso era, à sua maneira, a mais tola das mentiras que a indiferença e a maldade inata pudessem inventar, porque não era o artista da fome quem fraudava — ele trabalhava honestamente –, mas era o mundo quem o defraudava de sua recompensa.

Mas passaram novamente muitos dias, e também isso chegou a um fim. Certa vez, a jaula chamou a atenção de um inspetor, e ele perguntou aos serventes por que essa jaula, que ainda tinha boa serventia, estava aqui abandonada, cheia de palha apodrecida; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, conseguiu lembrar do artista da fome. Remexeram a palha com varas e encontraram o artista da fome no meio dela.

- Você ainda está jejuando — perguntou o inspetor, — quando é que você vai parar?
- Desculpem-me todos — sussurrou o artista da fome, e apenas o inspetor, que aproximou o ouvido da grade, o entendia.
- Certo — disse o inspetor, e pôs um dedo na testa, para dar a entender ao pessoal o estado do artista da fome, — nós o desculpamnos.
- Na verdade, eu queria que vocês admirassem o meu jejum — disse o artista da fome.
- E nós o admiramos — disse o inspetor, condescendente.
- Mas vocês não devem admirá-lo — disse o artista da fome.
- Ora, então nós não o admiramos — disse o inspetor — e por que não devemos admirá-lo?
- Porque eu tenho que jejuar; não posso de outro jeito — disse o artista da fome.
- Ora vejam só — disse o inspetor — e por que você não pode de outro jeito?
- Porque eu — disse o artista da fome, levantando um pouco a cabecinha, e falou fazendo um bico com os lábios, como para dar um beijo, diretamente no ouvido do inspetor, para que nada se perdesse, — porque não pude encontrar a comida que eu gosto. Se eu a tivesse encontrado, pode crer, não teria feito nenhum estardalhaço e teria comido até me fartar, como você e todos os outros.

Essas foram as últimas palavras, mas ainda nos seus olhos quebrantados estava a convicção firma, porém não mais orgulhosa, de que continuava a jejuar.

- Ponham ordem nisto tudo, finalmente! — disse o inspetor, e o artista da fome foi enterrado junto com a palha. Mas na jaula foi posta uma jovem pantera. Era um alívio sensível, mesmo para os de sentido mais embotado, ver nessa jaula tanto tempo deserta um animal jovem, jogando-se de um lado para o outro.

“Um artista da fome” (fragmento) (Franz Kafka, 1924). In: Humboldt. Instituto Goehte, n. 90. p. 21. 2005.