Leu no jornal que o Prédio dos Dados era o mais eficiente do condado. Sentiu orgulho por ser parte dele, mas estava indiferente por não ser mencionado. Não importava, desde que o dos Dados fosse o mais eficiente.
Sentado lá o dia inteiro, às vezes imaginava-se em casa. Tirando a gravata (que começava a apertar) e deitando na cama. Pegando o lápis rombudo e o papel. Sem música. Não precisava de música. Precisa era escrever. Ou digitar.
Começava também a querer voltar pra casa mais cedo, antes da pilha de papéis acabar. Se aborreceu e reclamou — as letras, agora, pareciam menores e achava que alguém de algum andar superior comprimia os dados para ocupar mais espaço e mais operários.
Ele digitava, homunculus. Digitava. Os números pequenos. Estava na ala dos números pequenos. Contudo, também começava a querer digitar os números longos (talvez pra ter no quê prestar atenção). Mas não. Ele era da área dos números pequenos e das tabelas simples, sabia disso.
Os colegas não pareciam notar sua crescente insatisfação, uma vez que não se falavam. Na cantina cada um entrava, comprava, sentava e comia. Era uma cantina, afinal. Em casa, além dos vários “digitei”, começava a escrever que havia cansado
Um dia, Uma manhã, maldita manhã, ele quis mudar o mundo.
Não tomou café da manhã. Foi mal vestido para o trabalho (sem banho) e lá chegando decidiu botar o prédio abaixo. Digitou todos os números na ordem errada. Fez questão de pular páginas de tabelas e, nas casas faltantes, inventar números aleatórios.
São dados. Não faziam sentido pra ele (e de fato não era para fazerem) e ele se inconformou.
Ao final do dia foi preso.
A câmera de seu cubículo percebeu que os papéis estavam sendo descartados em pilhas grandes demais para o pequeno tempo de análise e transcrição, mesmo que aquele trabalhador fosse um bom exemplar. Foi preso e ninguém mais soube dele.
Bem, ninguém sabia muito bem dele. Se viam apenas no trabalho.
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“Homunculus, ou, O digitador”, Parte I.
Editado pela última vez em 21 de outubro de 2007.
