Tragédia

Ele sabia que não devia guardar o celular no bolso da camisa, perto do peito, do lado do coração. Sabia também que não podia guardar o celular no bolso da calça, perto das gônadas. Usar o celular pendurado por um cordão no pescoço, como se fosse um crachá, como todos os outros idiotas, seria inimaginável para ele. Então ele usava o bolso esquerdo da camisa pra guardar o celular mesmo. Ele gostava de correr riscos.

Ele também comia comida estragada, vencida. Ele desafiava a morte. O mais radical que ele já havia comido era um iogurte de morango que estava uma semana além do prazo de validade na geladeira. O gosto azedo e doce o divertira tanto naquela noite, imaginando que tipos de dores abdominais ele poderia ganhar por desafiar a morte.

De noite, quando estava sozinho em casa no quarto na cama, ele repassava todas suas atitudes malignas a fim de ter pesadelos. Gostava daqueles sonhos bobos e alegres, com flores e famílias nos parques, onde havia barulhos de conversa e balões com suas crianças. Preferia esses porque daí seria fácil destruir: fazer chover, acabar com a comida e fazer as crianças tolas perderem seus balões para o vento. Talvez até mesmo um ou dois ursos grandes e famintos. Ele não gostava de ninguém, era mau.

Ele também reclamava. Quando precisava lidar com alguém, tudo o que o outro fizesse era ruim. Tudo o que o outro fizesse e fosse ordem sua era ruim. Tudo o que ele fizesse e fosse ordem de outros era ruim. Tudo. Ele não queria estar em lugar algum, principalmente não queria estar nos lugares onde estava quando pensava que não queria estar em lugar algum. Desde cedo ele foi assim.

Começou comendo gibis porque não gostava das cores. Depois começou a jogar comida no chão porque não gostava dos tapetes (e do chão e das cadeiras). Aos quinze ele batia na mãe. Ele era insaciável. Ele buscava e buscava só para ter do quê reclamar. Cresceu e ficou chato, enrugado, chato e solitário. Odiava a todos por ser um velho ranzinza.

Só que um dia ele foi atropelado.

Bateu a cabeça, as duas pernas, o braço esquerdo e uma costela. Ficou no hospital não se sabe quanto tempo. Daí ele não gostou. Achou tudo ruim. A dor não era boa e não dava prazer. As pessoas das filas tinham vermes e fediam, e os quartos tinham velhos reclamões que não deixavam ele dormir — e não o contrário, como sempre desejou. Pensou: tudo bem, eu não queria nada disso mesmo. E morreu.

2 Respostas para “Tragédia”

  1. O_O

    Então tá, né? Que droga de vida essa… fkladçjfldkas :T

  2. ai.
    me deu medo desse cara.

    k.

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