Arquivo para Agosto, 2007

Quarta Moira

Postado em Tragédias em Sábado, 25 Agosto, 2007 por FernandoP

Ela sentava numa calçada na cidade circular e olhava as pessoas passarem. Havia se mudado para baixo da marquise salmão sem prédio porque a haviam escorraçado para longe da farmácia, que ficava perto de uma escola, que ficava perto de um mercado, que ficava perto de uma esquina onde alguns trombadinhas que já haviam entrado lá algumas várias vezes (agora eles assediavam pelo lado de fora). Todos os dias ela chegava na marquise na mesma hora em que a banca de jornais abria. Exceto finais-de-semana, quando repousava em casa.

Durante a semana, no entanto, esperava as pessoas passarem. Já conseguia lembrar dos rostos (e dos horários) de vários dos transeuntes. Os carros eram rápidos demais, e só lembrava de um ou outro por causa de acontecidos repetidos.

Como quando aquele preto subia no fio da calçada ao fazer a curva para direita, na mesma esquina em que ela estava. Todas as segundas-feiras aquele carro fazia aquilo. Assim como todas as terças e quintas, lá pela hora quatro, passava um moço alto e de calças jeans escuras com uma pasta no braço. Fazia algumas semanas que ela passava os dias ali. Já conhecia algumas das pessoas. Os dias de chuva complicavam, então ela aprendeu a saber quando ia chover também. Para não perder a viagem.

Nunca haviam conversado com ela. Alguns até atiravam trocados, meio com pena dos pés engraçados que tinha. Ela sorria, procurava com os olhos a moeda perto dos seus panos encardidos e voltava a mirar.

Os pés eram pretos, unhas meio destruídas, calcanhares em cacos. Já ela tinha se acostumado. Alguns deles, dos que ainda jogavam moedas, não.
Havia aqueles que também não olhavam para ela. Passavam reto. Teve um que até mesmo esbarrou no pé dela. Ela, calma, desejou a morte baixinho. Não que ela soubesse o que fosse acontecer, ou que já tivesse visto aquele debilóide passar por lá antes, mas também nunca mais o viu.

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Texto editado pela última vez em 21 de outubro de 2007.

Clube de tiro

Postado em Tragédias em Quarta-feira, 22 Agosto, 2007 por FernandoP

Ele não havia nem conseguido dormir naquela noite, de tão ansioso que estava. Imaginava como tudo ia ser, finalmente, depois de tanto tempo. Mal esperava sentir o cheiro da grama, o carro trepidar sob ele, pertencença.

Tudo estava programado há algumas semanas, ele já estava pronto fazia algum tempo. Finalmente sua proposta havia sido aceita e ele também havia sido aceito para o clube. No dia seguinte (que já era hoje, já que ele passou a noite em claro, ansioso) ele pegaria o ônibus e encontraria eles lá.

Mal comeu um pão puro e tomou café preto (a casa era pobrinha. era um apartamento de velho solteiro, sem muitas coisas, especialmente luxos ou belezas) e partiu, só com a roupa do corpo e pouco dinheiro, para a rodoviária. Chegou adiantado e teve que ficar esperando. Maldita ansiedade. Entrou no ônibus e descansou um pouco, respirou fundo e conseguiu relaxar um pouco. Mas ainda não sentia fome nem frio, só o corpo destensionar um pouco.

A viagem demorou umas três horas. O clube ficava mais pro campo. Saiu do ônibus e viu o carro popular branco que o outro havia dito que tinha. Entrou, o outro acenou com a cabeça e acelerou. Ele apertou o cinto enquanto já estavam acelerados. A estrada de terra, chão batido, esburacada, era bem como ele havia imaginado. Não haviam trocado muitas palavras — nenhuma, na verdade — e ele não sentia muita necessidade de falar.

Chegaram.

A porteira abriu com um aperto de botão comandado pelo motorista. Os outros já esperavam lá dentro. Eram em torno de cinco. Todos com seus carros encostados perto de uma árvore, bebendo cerveja e contando piadas. Ah, o clube. Ele não conhecia todos, mas já gostava deles. Finalmente. Depois de tanto tempo.

Chegando lá, sem muitas conversas, foi logo amarrado a uma árvore de maneira bem desconfortável. Não foi sequer desnudado. Amarraram suas mãos para trás do tronco, assim como suas pernas. Não foi amordaçado para poder gritar livremente (era um lugar com estrada de terra e apenas os seis homens).

Foi executado com cerca de quarenta tiros.

Todos abaixo da linha do pescoço.

Cada um dos seis homens de quem ele já gostava descarregou seu próprio revólver nele. Fizeram mira por todo seu corpo, apesar de evitarem acertar no peito, maior e parte mais exposta. Ele só gritava. Não sentia mais ansiedade e havia se entregado completamente. Pertencença. Barriga, coxas e púbis foram as áreas mais atingidas. Depois que todos haviam acabado com suas balas, o homem que havia servido de motorista se aproxima, percebe que ele ainda respira (lenta, baixo e esforçadamente) e dá um último tiro em sua cabeça.

Agora era só cavar um buraco bem fundo e voltar pra casa.

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editado pela última vez em 01 set 2007.

Deshima

Postado em Tragédias em Sexta-Feira, 17 Agosto, 2007 por FernandoP

Em Deshima eles não conversavam, até porque lá era proibido conversar. Era uma ilha curta, pequena e não-sexy. Meio fria, meio quente, os tripulantes haviam passado por toda sorte de climas durante a estada no único porto pequeno. De dia trocavam encomendas e à noite se divertiam jogando e bebendo (visitar casas de mulheres era proibido, mesmo que não fosse preciso conversar para isso).

Em Deshima as coisas eram mais difíceis e complicadas e era um lugar onde era proibido conversar.

Não se podia vender mapas nem aprender a língua local (alguns aprenderam e a trouxeram pra nós. a única coisa que valeu a pena). Em Deshima as mulheres eram brancas demais e a comida era branca demais. Não se podia conversar e os homens sempre queriam voltar (apesar do clima ser bom às vezes).

O porto era pequeno mas muito concorrido. Deshima era o único porto da região, medida tomada pelo senhor governo para impedir trocas (culturais, uma vez que o porto servia exclusivamente para trocas comerciais). Os habitantes que haviam se mudado para a ilha, por causa do bom salário (a ilha não tinha nada. tinha um porto e casebres), não reclamavam muito de suas condições porque eles podiam trocar mais do que produtos — não que fosse permitido.

O senhor governo havia deixado decretos impossibilitando qualquer comunicação com os exteriores. Medida de segurança. Trocas para quê?

Se bastavam alguns panos e alguma e outra especiaria. Coisa que o continente poderia muito bem produzir caso fosse dado tempo. Ninguém precisava daquele porto ali. Eles eram auto-suficientes e haviam construído a ilha unicamente para evitar a pressão externa, que queria porque queria entrar em contato com eles (dizia-se, alguns anos depois, que os estrangeiros queriam aprender sobre ervas e sobre os pincéis de nankin, além do método de medir a pulsação). Ninguém queria aqueles coloridos ali. Pelo menos ninguém que contava, como o senhor governo.

Os habitantes dos lugares, especialmente as habitantes, que viam como trocas com os marinheiros poderiam ser recompensadoras, gostava de trocar mais do que produtos.

Ouvi dizer que uma vez trocaram inclusive mapas.