Ela sentava numa calçada na cidade circular e olhava as pessoas passarem. Havia se mudado para baixo da marquise salmão sem prédio porque a haviam escorraçado para longe da farmácia, que ficava perto de uma escola, que ficava perto de um mercado, que ficava perto de uma esquina onde alguns trombadinhas que já haviam entrado lá algumas várias vezes (agora eles assediavam pelo lado de fora). Todos os dias ela chegava na marquise na mesma hora em que a banca de jornais abria. Exceto finais-de-semana, quando repousava em casa.
Durante a semana, no entanto, esperava as pessoas passarem. Já conseguia lembrar dos rostos (e dos horários) de vários dos transeuntes. Os carros eram rápidos demais, e só lembrava de um ou outro por causa de acontecidos repetidos.
Como quando aquele preto subia no fio da calçada ao fazer a curva para direita, na mesma esquina em que ela estava. Todas as segundas-feiras aquele carro fazia aquilo. Assim como todas as terças e quintas, lá pela hora quatro, passava um moço alto e de calças jeans escuras com uma pasta no braço. Fazia algumas semanas que ela passava os dias ali. Já conhecia algumas das pessoas. Os dias de chuva complicavam, então ela aprendeu a saber quando ia chover também. Para não perder a viagem.
Nunca haviam conversado com ela. Alguns até atiravam trocados, meio com pena dos pés engraçados que tinha. Ela sorria, procurava com os olhos a moeda perto dos seus panos encardidos e voltava a mirar.
Os pés eram pretos, unhas meio destruídas, calcanhares em cacos. Já ela tinha se acostumado. Alguns deles, dos que ainda jogavam moedas, não.
Havia aqueles que também não olhavam para ela. Passavam reto. Teve um que até mesmo esbarrou no pé dela. Ela, calma, desejou a morte baixinho. Não que ela soubesse o que fosse acontecer, ou que já tivesse visto aquele debilóide passar por lá antes, mas também nunca mais o viu.
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Texto editado pela última vez em 21 de outubro de 2007.
