Primeiro soneto de amor (que não é soneto e é quase de amor)

Postado em Tragédias às Segunda-feira, 21 Julho, 2008 por FernandoP

(Para МРБ)

I want to give you peace, love
And money and blood and a house by mine
So you wouldn’t have to ride dark trains to meet me (so I wouldn’t have to wait you)

I want to give you this and that (but please, don’t ask for my ass)

I want to paint you and dream you and caress you
And be tame (not that I can)

I don’t want to think about this all only when I think it might end

Desorgulho

Postado em Tragédias às Sábado, 19 Julho, 2008 por FernandoP

Eram feios. Era óbvio. Todos sabiam e concordavam, inclusive eles mesmos. Nos trabalhos escolares sempre era uma vergonha isso de contar a vida e mostrar os parentes. Era uma árvore genealógica torta, meio falhada, como se tivesse crescido num lugar com muito vento. Revirada.

A avó da avó da avó — que fora uma das únicas pessoas bonitas, talvez morta por desgosto no nascimento de sua filha ao perceber que aquele bicho saíra de dentro dela — casara com um homem feio, de circo. Foi aí que tudo começou. Ou foi aí que a beleza terminou. Ela se perguntava por que diabos deus dera a ela uma criança tão feia.

Eram perfeitos, contudo. Sobrava-lhes saúde. Era tanta saúde que sempre davam um jeito de procriar. E não importava se escolhiam consortes divinos, as crias sempre sairiam horrendas. Era uma sina. Mas estavam acostumados. Estavam acostumados.

Eram perfeitos porém feios. Poucos precisavam de óculos. Ainda menos precisavam de dietas, seja de engorda ou seja de magreza. Não tinham problemas de saúde. Eram apenas levemente desfigurados.

Os últimos, os mais novos, também. A mãe tinha o rosto alongado pra frente, caminhava curva para a direita. Lábios pontudos, bicudos. O pai era completamente careca, com olhos muito pequenos e boca menor ainda. Mãos curtas e pés virados.

Geraram filhos feios. Não tinham orgulho de seus filhos feios, assim como seus pais não tiveram orgulho deles. A filha, cara-de-cavalo e passos apressados em saltos altos, ela até conseguiu casar. Já ele, o filho, ele, contudo, precisou ceder a vícios mais fáceis.

Três cadelas

Postado em Tragédias às Segunda-feira, 9 Junho, 2008 por FernandoP

Eram em número de três e não se separavam. Três putinhas unidas em sua escrotidão. Se conheceram muito jovens, muito jovens mesmo. Talvez tivessem se influenciado mutuamente na maldade, na falta de hombridade. Talvez houvesse uma líder. O importante de notar, enfim, era que não passavam de miseraveizinhas.

Porcas malditas que se uniam para passear pelas ruas da cidadezinha - do Dorf.

Moravam juntas agora, já que a casa de duas delas havia ido aos ares. Eram tão vis que riram quando perderam suas coisas. Os pais da terceira (que ainda viviam) ofereceram guarida, pois a uma primeira vista pareciam humanas.

Todos os dias, algumas horas depois deles chegarem e partirem, elas saíam às ruas. Catavam pedrinhas, encontravam objetos perdidos pelas ruas (mais pés de sapato do que qualquer outra coisa. às vezes, cabelos), e olhavam para cima e para os lados com curiosidade infantil, como se pudessem registrar detalhes de cor e sombra. É possível que pudessem — eram tão pequenas que talvez até conseguissem.

O que mais as divertia, nessas saídas, era ver a casa dos outros caídas (de preferência sobre os outros). Também apontavam e riam dos cachorros agora surdos e assustados. Uma delas — se tornava difícil distingüir uma da outra agora — inclusive levou um desses cães para casa, para poder assistir a ele definhar com mais calma.

Negou-lhe comida e água. Negou-lhe proteção. Só deu-o abrigo, mas por motivos óbvios. A ele foi dada a permissão de morrer em sua casa desde que agonizasse lindamente. O velório do bicho ainda vivo foi realizado no quintal, com as três meninas ao redor, com olhos e palpitações de prazer.

Quando finalmente morreu, elas abriram-no e contaram seus ossos.

Eram malditas e sabiam disso, se divertiam com isso.

A história acabou, contudo, quando eles chegaram à cidade e entraram na casa. Atiraram na mãe, que cozinhava, e surraram o pai até ele colapsar. As meninas, que não eram tolas, trancaram-se no quarto: uma embaixo da cama, uma no armário e outra olhando a janela. Não tentaram fugir quando eles atearam fogo à casa.

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Modificado em 17 de julho de 2008.